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O sucesso dos perversos

A prevalência do pecado e a aparente felicidade do ímpio também incomodaram o sábio Salomão.


O sucesso dos perversos

O Brasil está de ponta cabeça. Não só o Brasil, claro. A defesa do indefensável está ganhando contornos globais, entretanto, focando em nossa realidade mais próxima, é perceptível o quanto estamos submetidos a intensa propaganda de normalização do absurdo e legitimação da barbárie.

Aqueles que deveriam ser os pilares intelectuais da nação, os pensadores acadêmicos, em sua maioria, fazem desbragada campanha política em prol de um condenado por corrupção, membro de um partido que tentou fraudar a democracia brasileira mediante corrupção sistêmica.

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A roubalheira não importa. A sujeira não os incomoda. O fedor não irrita seus narizes empedernidos. A única coisa que vale, e que enxergam à sua frente como a cenoura que move o burro, é a ânsia por derrotar o conservadorismo cristão e tudo o que ele representa à sociedade.

Para tal, não se incomodarão em mentir e alardear as mais torpes sandices sobre aqueles que tencionam derrubar, como, por exemplo, acusar de fascistas aqueles que eles mesmo perseguem usando táticas fascistas.

Por trás da aparência judiciosa o que se encontra é a psicopatia típica dos que perderam toda a capacidade de consciência. Fingem o tempo todo que acreditam na própria importância e na importância de sua “produção intelectual”, que na verdade já venderam a um partido e a uma militância corrompida.

São eles que defendem que bebês sejam assassinados ainda no ventre, culpando-os pela inconveniência de atrapalhar a prática contínua de sexo desajuizado das pessoas.

Mas como eles detém o “monopólio do bem”, é claro que o intolerante da discussão será você, por estar protegendo o bebê!

Neste caso, por conveniência, não é o mais fraco que merece proteção.

A aceitação do discurso hediondo não é algo novo. Há cinco séculos o poeta  português Luis Vaz de Camões escrevia um poema chamado “O desconcerto do mundo” em que questionava a aparente injustiça que há na prevalência do perverso diante do justo.

Os bons vi sempre passar
No mundo graves tormentos
E para mais me espantar
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado
Fui mau, mas fui castigado
Assim que só para mim
Anda o mundo consertado

O desconcerto do mundo não é o poema mais popular e conhecido de Camões. Entretanto, revela-se como uma atemporal reflexão a respeito do que acontece na terra dos viventes, conforme a análise individual de cada um sobre a injustiça abundante e o próprio merecimento.

No contexto apresentado, bondade e maldade estão associados a honestidade e desonestidade. O honesto viveria uma vida repleta de tribulações – como foi a própria vida de Camões, sem juízo de mérito sobre seu caráter.

Por outro lado, o perverso seria recompensado por sua perversidade. Vive em palacetes e se cerca de poder. Oprime e não é castigado. Pratica o mal e não é incomodado.

Há nos versos camonianos ecos do mesmo problema relatado nas reflexões de Salomão, relatadas em Eclesiastes:

Tudo isso vi quando me pus a refletir em tudo o que se faz debaixo do sol. Há ocasiões em que um homem domina sobre outros para a sua própria infelicidade.
Nessas ocasiões, vi ímpios serem sepultados e gente indo e vindo do lugar onde eles foram enterrados. Todavia, os que haviam praticado o bem foram esquecidos na cidade. Isso também não faz sentido.
Quando os crimes não são castigados logo, o coração do homem se enche de planos para fazer o mal.
O ímpio pode cometer uma centena de crimes e até ter vida longa, mas sei muito bem que as coisas serão melhores para os que temem a Deus, para os que mostram respeito diante dele.
Para os ímpios, no entanto, nada irá bem, porque não temem a Deus, e os seus dias, como sombras, serão poucos.
Há mais uma coisa sem sentido na terra: justos que recebem o que os ímpios merecem, e ímpios que recebem o que os justos merecem. Isto também, penso eu, não faz sentido. Eclesiastes 8:9-14 (NVI)

A prevalência do pecado e a aparente felicidade do ímpio também incomodaram o sábio Salomão. O contraponto com a luta que o justo enfrenta é sempre o parâmetro que não se pode entender.

No poema de Camões, o ato de prestar-se à pratica do mal traz castigo. Talvez a punição seja o grito da própria consciência que, no justo, mesmo diante da realidade de que todos pecaram e só podem ser reconciliados com Deus mediante à Graça proveniente Dele, não se cauterizou a ponto de ignorar os princípios éticos e morais.

Fora o juízo divino, que provém tão somente Dele, a pior punição que um homem pode enfrentar é a da própria consciência. O “Assim que só para mim anda o mundo consertado” é, maioria das vezes, o clamor da consciência pela retomada do caminho da justiça.

Mas se não há nenhum justo sequer, o que nos diferencia?

O fato de que alguns se condoem do fato de serem pecadores e maus, enquanto outros se orgulham.

O sentimento de injustiça é venenoso. Conforme Salomão, “Quando os crimes não são castigados logo, o coração do homem se enche de planos para fazer o mal.”

Os tempos são malignos. Já o eram há mais de dois milênios quando Salomão escreveu seu texto, e há quinhentos anos quando Camões escreveu o seu, e quando Gerard Nerval, o romancista francês que enlouquecer no ocaso da vida, disse que “A vida é um pardieiro de má reputação. Tenho vergonha de que Deus me veja aqui.”

A sensação de impunidade pode nos perverter o coração. O Brasil vive um momento calamitoso. A inversão de valores é patente. Vemos os que prezam pelos valores morais passarem no mundo graves tormentos; os maus, no entanto, vemos nadar em mares de contentamentos.

Que assim seja. Mas não nos tornemos como eles.

Mais vale o enfrentamento das dificuldades de uma vida limpa, que a fartura de uma vida imunda.



Renan Alves da Cruz é historiador, professor de Escola Bíblica Dominical e colunista de política e cultura do portal Voltemos à Direita.

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